A dança do silêncio em torno de Demna na Gucci: genialidade em curso ou falta de direção?
- Lucca B. de Menezes
- 11 de jul.
- 2 min de leitura
Faz quatro meses que o nome de Demna foi anunciado como novo diretor criativo da Gucci, mas o mercado continua no escuro. A única certeza? Seu primeiro desfile está marcado para março de 2026.
A afirmação veio diretamente de uma entrevista com a crítica Suzy Menkes logo após o encerramento de sua era na Balenciaga, onde Demna afirmou:
“I cannot do things in two months. My first show will be March 2026. But I will do things this year to remind people what Gucci is.”
Enquanto isso, os investidores seguem aguardando um plano mais claro. A verdade é que a Gucci não pode se dar ao luxo de esperar tanto. A marca é responsável por quase dois terços do lucro operacional da Kering, que vem enfrentando desaceleração nas vendas e aumento da pressão competitiva. E, neste cenário, não é só sobre estética. É sobre ritmo, estrutura e direção.
A aposta em Tom Ford como ponto de partida.
Rumores recentes indicam que Demna estaria mergulhado nos arquivos da era Tom Ford, obcecado por entender o que fez a Gucci atingir o ápice no final dos anos 90 e início dos 2000. É um ponto de partida inteligente, mas que levanta uma questão relevante: reconstruir o desejo a partir do passado é suficiente em um mercado guiado por ciclos de consumo acelerados, expectativas trimestrais e narrativas em tempo real?
Segundo Demna, o objetivo inicial é "lembrar às pessoas o que a Gucci é", o que indica que ele terá influência nas coleções de setembro e janeiro, antes do grande debut. Mas ainda não está claro o que isso significa em termos práticos. A ausência de direcionamento firme deixa uma sensação desconfortável para quem observa o grupo do lado financeiro.
O tempo como ativo... ou passivo?
Há quem veja esse movimento como uma jogada estratégica: dar tempo ao designer para se aprofundar nos códigos da casa e evitar erros apressados. Mas também há o risco de sinalizar fragilidade organizacional. O mercado precisa de visibilidade, e até agora, o que se tem é silêncio. Nenhuma campanha nova, nenhuma prévia concreta de produto, nenhuma sinalização clara ao consumidor — e menos ainda ao investidor.
Enquanto isso, o grupo depende urgentemente de uma reversão nos resultados da Gucci para sustentar suas margens e justificar seu valuation. A última temporada mostrou um crescimento tímido em relação aos concorrentes, e a entrada de Demna deveria ser o catalisador dessa virada. Mas sem entregas de curto prazo, a dúvida paira: esse hiato é estratégico ou sintoma de desorganização?
A pergunta que vale bilhões.
Será que Demna está apenas montando um plano genial, do tipo que reinventa os códigos da marca e cria uma nova era de desejo cultural?
Ou será que estamos diante de mais um capítulo da dificuldade da Kering em reestruturar a Gucci após anos de desgaste criativo e comercial?
Enquanto as respostas não chegam, o tempo corre – e o relógio da bolsa não perdoa.
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